O Monte Brasil e as três fortificações de Angra

Por: Francisco Maduro-Dias, Museólogo e gestor de Património Cultural

Olhar a cidade de Angra, do outeiro da Memória, das muralhas do forte de São Sebastião, a nascente da baía, ou do Pico das Cruzinhas, em pleno coração do Monte Brasil e da fortaleza de São João Baptista, a oeste, é revisitar mais do que três locais fortificados.

Em boa verdade Angra, “do Heroísmo” desde 1837, surge porque existe o promontório do Monte Brasil, gerador de ancoradoiros e protector contra a maioria dos ventos dominantes. A cidade nasceu à sombra da angra, pequena baía, donde tira o nome e a razão de existir.

Sem o Monte seria impossível o abrigo, mesmo que nem sempre seguro, nestas latitudes do Atlântico central, apoiando a circulação de frotas e navios dos dois impérios ibéricos, entre os séculos XVI e XVII, e ficando marcada, para sempre, desde o casario à culinária, por uma história que só se compreende se nos lembrarmos da Guiné e da Costa da Mina, de Goa e Malaca, de Cartagena de Índias, de Sevilha ou da Baía.

Mas podemos ir mais longe. Os dois impérios ibéricos sempre demonstraram formas, quase opostas, de se relacionar com o mar e Angra é testemunho disso.

Para Portugal, sobretudo o desses séculos recuados, o mar é um aliado, permitindo um império apenas com pontos de contacto em terra onde interessasse comerciar, servido por um sistema de rotas apoiado nas águas do oceano e flexível consoante as necessidades. “Mar quanto vejas, terra quanto te baste” poderia ser o lema. Por isso Angra foi base da Armada das Ilhas.

Para Espanha, não obstante o poderio naval e as vitórias conseguidas, o mar parece ter sido visto, quase sempre, como algo de estranho, sendo preferível usá-lo apenas para atravessar de um continente a outro, de uma terra a outra. Daí a construção de um espaço fortificado rodeando o Monte Brasil e praticamente inatacável.

Entre os séculos XVIII e XX essa relevância desaparece, mas a posição estratégica mantém-se. É assim que Angra volta a desempenhar um papel fulcral durante a guerra civil portuguesa (1828-1834) e a ser movimentada pelos dois grandes conflitos mundiais do século XX.

Visitar Angra, com o olhar que lhe propomos em título, é percorrer cinco séculos de visões do mundo, na diversidade da arquitectura militar, dos conceitos de defesa e ataque, nas evoluções da artilharia e das armas de fogo até ao aparecimento da aviação, e compreender, talvez um pouco melhor, o mundo em que vivemos.

Informações úteis

Duração: 1 dia

Nível de dificuldade: Fácil

Vestuário: Vestuário confortável para caminhadas.

Horários: Poderá realizar a visita em qualquer altura do ano.

Reservas: Se fizer um planeamento com alguma antecedência, através de uma agência de viagens ou empresa de animação turística, é possível criar algumas atividades de animação complementares.

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